Iluminar os dias, continuando a sonhar que é possível viver...

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domingo, 1 de abril de 2007

Cinco dias hospitalizada.

Dia 21 a 26 de Junho 2006:

O primeiro dia na sala de recobro, sem dores, bem disposta, sem telemovel.
Segundo dia, já no quarto... o meu marido veio visitar-me, com um sorriso nos lábios, e uns sumos num saco. De seguida, visita do Beti, um amigo de longo tempo, que começou a falar e não desarredou dali nas próximas duas horas. Tivemos uma conversa prolongada entre amigos que quase só se procuram quando algo corre bem ou mal.
As minhas visitas vinham quase sempre entre a 14h e as 16h, o resto da tarde ficava entregue a conhecer pessoas que ali permaneciam. Gosto muito de conhecer pessoas, é um facto.Mas tinha necessidade de auxiliar alguem que estivesse pior que eu, como se fosse uma terapia para a minha cura. Uma primeira etapa a ultrapassar: como será que ficou o meu corpo? Não foi fácil perceber que afinal não me faltava nada. A enfermeira que primeiro me mudou o adesivo apercebera-se que eu nem queria para lá olhar.Não olhei. Mas depois de me ter tirado os adesivos, pegou na minha mão e pô-la no meu seio. Sei lá descrever o que senti. Sei que fiquei a naufragar num tormento de medos: "porquê eu?....porquê Meu Deus?". Essa enfermeira era bastante atenciosa e meiga,era a ela que me queixava quando algo não estava bem. Como por exemplo, as dores nas veias, a veia que ficou vermelha de infectada, por onde recebia o soro e a medicação intra-venosa. Entretanto os drenos e o soro, "lixavam-me os dias". Eram dois drenos, um da mama, outro da axila. O primeiro andava ali pendurado, a bater-me na perna direita quando estava de pé. O segundo estava violentamente cravado nas costas, ou numa costela, quase debaixo do braço. Quando me deitava tinha receio que não estivessem bem posicionados e os estrangulasse.O problema nisto tudo era o não conseguir mover os braços como desejava.De manhã acordava, ia tomar o meu duche, chamo-lhe o que quiser, mas era uma limpeza muio restrita. Penteava-me, de modo a ficar com um carrapito pendurado a meio da cabeça, sempre a descair para os ombros, já a começar a criar óleo.Mas lá saia da casa de banho, mais fresca, com um pijamita lavado, quase sempre calções, estava um calor que fartava. Foi numa destas manhãs que conheci a Maria João. A minha amiga da barriga. Ela ajudou-me a vestir numa manhã, na casa de banho.Era muito bem disposta, e apesar de fisicamente parecer frágil é dotada de uma força tremenda. Conheci também a Rosilene, uma brasileira, minha companheira de quarto, que esteve sempre imobilizada na cama, a quem eu dava a comida à boca, mais precisamente cerejas, pela noite dentro. E a alentejana, a que o filho a tratava por carcaça" a minha carcaça" e eu dava-lhe beijos na testa, devido a sua baixa estatura, e dizia-lhe " minha alentejana quando é que cá vem o moçoilo para vermos se há casoiro?".Muito ria ela das parvoices que eu lhe dizia ... tomara que lhe aliviasse os momentos danados de maus, sem visitas. A minha vizinha, da cama ao lado que me contou a sua historia de colonizadora em Angola e mais tarde desalojada e sem nada em terras do Douro.Com que paixão me falou do marido, que apesar de falecido, continua bem vivo na sua memória, contou-me como aconteceu o casamento inesperado em Africa, dos 4 filhos.E de tal modo eramos unidas, que os filhos já traziam chocolates para mim, quando traziam para ela. Quando ela saiu, dei-lhe o meu contacto, não fiquei com o dela. Aguardo um telefonema, para que me diga que está tudo bem. Gostava qu ela me procurasse um dia . A Amélia, com o diagnostico muito identico ao meu, veio desta vez, fazer o esvaziamento axilar, porque só quando veio o resultado do que lhe tiraram na operação, soube que era um nodulo maligno. Muito recatada, não se sentia muito à vontade, com as companheiras de quarto, tinha um ar triste. A Maria João, passava pelo meu quarto, quase sempre pela manhã, e dizia-me "Vamos ao forum Almada, fazer umas compritas?"... ia de saco na mão e tudo, lá iamos nós conversar para a sala de espera do piso de ginecologia, onde estavamos, muito vagarosamente para causa dos meus drenos. Falava-me do André, o seu filho de 6 anos. Falava-lhe do meu Miguel.Mostramos fotos, contamos as gracinhas deles, e tentavamos rir de alguma coisa, que não tivesse piada. Inventavamos lojas onde haviam cadeiras, actores de teatros em vez das visitas, construimos uma amizade. Ela dizia que eu era a sua prenda de anos, por ter entrado para o hospital. no dia em que ela fez 35 anos.
Só pensava no meu filho... principalmente quando a noite chegava.A minha Ni, mandou-me um video para matar saudades do Miguel, a dançar... quem dançou nessa noite num mar de lágrimas, adivinhem quem foi...

Um comentário:

NI disse...

do pior..uma moçoila linda e maravilhosa a mandar videos do «gue» para essa «maridalmira» nao ter tantas saudades e dp era rios e rios de lagrimas...tb me lembro de fazer umas video-chamadas mas a coisa tb n correu bem...lol
ah e tb me lembro dessa tal «carcaça kando te fui visitar.. :P
beijinhx da «Ni»