Iluminar os dias, continuando a sonhar que é possível viver...

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Um abraço, uma palavra, um sorriso... um caminho que poderá ser muito longo. Afinal é possível.

sábado, 18 de agosto de 2007

Cansaço e Solidão.

15 de Setembro 2006 (diário)



Já estou como a Otilia Lima aquando dos seus tratamentos, internada no oitavo piso do Garcia da Orta, com alguma tristeza concluia perante a sua nova imagem : " Agora, já não há motivos para terem inveja de mim... ".
É assim, quando nós estamos no cume do desespero, quando nos doi o corpo e não temos paciência para ouvir um ruido, vem-nos à memória tempos passados, e o que nos podia ter causado a doença. Como diz a Simone de Oliveira, no seu livro e dizem também os médicos :" nunca ninguém sabe". Nunca ninguém sabe o que nos provoca a doença degenerativa, contraria às leis normais da reprodução de células... porque razão o que era redondo a determinada altura, passa a ser quadrado? porque lhe é dado essa ordem contraria?....

Não sabemos a resposta... mas sabemos que a inveja é um sentimento muito feio, muito mau, que nos agride violentamente senão soubermos lidar com essa situação. E ás vezes vem de onde menos esperamos e quando menos precisamos.Mas nunca precisamos e como vem de pessoas que gostamos, tudo é pior, mais doloroso. Mais recalcado, porque sabemos, mas fingimos não perceber, queremos evitar chatices maiores. Tem sido muito esclarecedora a mente humana. As pessoas são evidentes, e bastante transparentes, também quando são más. Tenho encontrado disso ao longo dos meus dias, como todas as pessoas, afinal não somos perfeitos, nem ninguém o é. Mas cheguei a um patamar da minha vida, que penso que já não há motivos para me invejarem. Vão cobiçar a doença que me violentou o corpo? Quem perderá tempo, agora a dizer mal de mim a seu belo prazer? mas talvez me engane...



Infelizmente e com muita pena minha, tenho tido dissabores em relação a poucas pessoas, mas não deixam de me criar danos. Há sempre alguém que nos sorri, de frente... e nos cria problemas, nas costas. Tinha dias, que me sentava sozinha no meio da minha sala, e pensava que aquele era o meu mundo, e que ali ninguem me podia fazer mal. Controlar a solidão em que cai espontaneamente, aumentar a força que vem de dentro, e que só espiritualmente conseguimos adquirir, fez-me dicidir começar a frequentar aulas de yoga, no Espaço Oriental. O corpo doia-me, mas a alma estava pior... precisava tanto de mimo! precisava que gostassem de mim.Por mais fortes que sejamos, precisamos muito de apoio e carinho. Todos nós... quando passamos por isto. Quando algo assim nos acontece, precisamos muito de receber e nem sempre conseguimos retribuir. E poucos são os iluminados que entendem isso. Ou temos a sorte de conhecer pessoas altruistas e bondosas ou temos de criar defesas na pele e no espirito, para continuar...


Tinha de seguir o caminho mais acertado par me reabilitar, e ao mesmo tempo ia conhecendo novas pessoas.

Mas o objectivo é: - quando tudo parece desabar sobre a nossa cabeça em queda vertiginal...temos de nos agarrar em qualquer ponto da queda...

Sorrir ao mundo, regressar à tona, olhar em frente, muitas das vezes com uma garra de quem vai começar de novo, sem passado, sem magoa, sem ressentimentos, sem recalcamentos... afinal a nossa luta é contra a doença, não podemos desperdiçar energias em prole de outras batalhas...tudo o que houver para resolver, resolve-se no futuro, quando a doença não nos ameaçar. É assim que tem de ser...

Quando nos vimos forçosamente sentados, num recanto da lua, tudo nos ocorre... tudo nos derruba... e tudo nos dá força. Temos de ter a calma para esperar a madrugada... o Nascer do Sol.

Fui fazer análises, encontrei-me com a Maria João dei-lhe um lenço castanho, para ela usar na cabeça, porque a mim não me iria fazer falta...adoptei a peruca. Chego a casa e deixo-a meio abandonada na casa de banho... mas na rua tem sido útil.

No dia seguinte às análises, lá estava eu para a consulta, com o Dr Frederico, que me questionou sobre o periodo das tres semanas... e que me disse que eu não iria fazer tratamento. Primeiro fiquei alerta, depois um bombardeio de questões, e percebi que o que me aconteceu, é normal.respondeu-me " é sinal que o tratamento é eficaz". Estes médicos de oncologia teem de desenvolver um tipo de palestra, para nos encorajar, e eu sinto isso em particular no meu médico, que com algum humor me vai dizendo o que se passa comigo.
A queda de globulos brancos, é um dos efeitos da quimioterapia.

Os efeitos da quimioterapia sobre o nosso sangue. Temos três tipos de células: os glóbulos vermelhos, os glóbulos brancos (leucócitos) e as plaquetas. Todas estas células podem ser afectadas pela quimioterapia, que pode fazer baixar o seu número. Se o número de glóbulos vermelhos baixam, pode surgir anemia. Se o número de plaquetas diminui, podemos ter mais tendência para hemorragias. Se forem os glóbulos brancos a baixar, podemos desenvolver infecções com mais facilidade. Ora era este último o meu problema. Glóbulos brancos a menos. Se levasse outro ciclo de tratamento, poderia ser muito mais nefasto do que proveitoso para mim. Dai adiar uma semana o ciclo e levar as benditas injecções incolores na barriga ( numa prega da barriga, mais precisamente ). E havia necessidade de ser mais cautelosa, lavar as mãos sempre antes de comer. Evitar locais públicos ( mas eu sentia uma grande necessidade de andar sempre por ai, nas horas que deveriam ser de descanso). Evitar estar perto de pessoas constipadas ( o que tambem não conseguia evitar...o meu filho constipou-se, logo em finais de Setembro, o pai dele também, apanhou uma tão grande que mal conseguia falar. E eu não podia, nem queria, como é lógico, afastá-los. Sabia de antemão, que algo mau estava para chegar, sem saber como controlar isso.

Porque estava com neutropenia. Com as ditas injecções os valores subiriam e ai sim!...poderia receber o segundo ciclo. Fiquei triste, porque pretendia ficar na conversa com a minha amiga, sempre custaria menos estarmos as duas no hospital de dia, e não vai ser assim... terei de esperar uma semana. E ela ja vai fazer hoje o terceiro ciclo. Toda animada, com dois lenços interlaçados na cabeça, um azul e um vermelho. Sempre muito aperaltada, na sua bijuteria a condizer e roupa jovial.

A primeira injecção, foi me dada na barriga por uma enfermeira do hospital de dia, e as outras eu iria levar nos dois dias seguintes, pela mesma hora, a uma senhora que mora perto. Deslocava-me antes do jantar à casa dela, e lá me dava ora no braço, ora na barriga, as seringadas .
Não doi a levar, é uma injecção com um liquido fino, incolor. O pior vem nas horas seguintes. Provoca repuchões nos ossos, principalmente nas costas, e nas pernas.Parecem choques eléctricos, descargas em ondas magnéticas, formigueiro, que me deixavam sem posição para estar...nem deitada nem em pé. Mas a maior parte dos dias em que levava as injecções recolhia-me no sofá a ler, o pior claro está era a partir das seis da tarde, com os banhos, os jantares...e a minha falta de paciência acumulada. Mas tudo se faz, e o dia seguinte aparece e recarrega-nos as baterias.E o amor pelo meu filho está acima de qualquer fadiga, tenho de ultrapassar a minha má disposição e pôr-me fina... ele é um bébé, e eu uma matulona. Tenho de ser forte. Os dias seguintes às injecções, decorriam dentro da normalidade. Passeava pelos foruns, ia ver exposições, recorria às salas de cinema pelas 14 h para comer um gelado, ou pipocas, que eu adoro!.... e aproveitava e via um filme que estreasse nessa semana...estas deligências a maior parte das vezes eram feitas sozinha. Mas outras, ia com a Mila, com o João ou com o Tiago
Aproveitei e numa ida à loja do cidadão a Setubal, olhei para dentro de um salão de cabeleireira, como só vi lá as profissionais com o salão às moscas, entrei e disse a uma: importa-se que saia um pente três?... ela olhou, sorriu, não fez perguntas, o meu cabelo pelos ombros, já estava a ficar muito fino. O meu marido com o meu filho ao colo aguardavam no corredor, a fazerem palhaçadas para eu me ir rindo. E foi muito animado aquele momento, que sempre pensei ser bem mais dificil.

Finalmente chegou o dia do segundo ciclo, tudo se repetia desta vez com um enfermeiro que não lembro o nome, do hospital de dia, que me dizia que a peruca parecia muito natural, ainda mais porque eu levava-a com uma fita de cor que me dava um ar jovem.
Ponto numero um: podia estar desfeita, triste, dorida, mas nunca saia de casa, sem ser com uma maquilhagem, que nem por sombra de duvidas, me daria aspecto de doente. Temos de estar sempre bem, olhar para o espelho e gostar do que vemos. Melhor, a confiança em nós tem de ter uma fasquia bem alta. Tentava conseguir uma imagem trabalhada, mas o mais natural possível. As pestanas e as sobrancelhas começavam a cair, devagar, mas já tinha em vista o que iria substitui-las: idêntico a um rimel, mas era uma escova que larga fios comparados às sobrancelhas e pestanas, que agarram às que nos restam. O problema era nas horas seguintes, quando algum fio daqueles caia para dentro de um olho, era esfregar até ficar vermelho, mas limpo. Enfim, uma tortura! ...haviam dias em que tudo corria melhor...

6 comentários:

Manuela disse...

Como diz a Loulou: Gaja que é gaja, está sempre no seu melhor!

Grandes batalhas as nossas e grandes vitórias também...

Beijinhos Isa

aida guimarães disse...

Olá Isa,

Tenho pena que em fases como a que passamos te tenhas sentido só.
Por várias vezes eu queria estar sozinha e não me deixavam.

Ao contrário do que dizes, tenho sido surpreendida por pessoas que até achava que não gostavam de mim e conseguiram surpreender-me pela positiva.

Acho fantástica a maneira como descreves tudo o que passas-te. Lembro de todos os pormenores, as datas, tudo, mas não tenho pachorra para as deixar no papel como só tu sabes fazer.

Já em tempos ouve alguém que sugeriu que tentasses editar a tua história.
E porque não?
Seria um orgulho para todas nós, afinal tudo que passas-te nós também passamos e revemo-nos em ti.

Obrigada amiga

Beijinhos grandes

Loulou disse...

A Manuela gostou do meu grito de guerra! :)
Mas é mesmo isso. Já temos que passar por esta situação horrível. Ao menos que estejamos sempre lindas. Eu também me arrumo todos os dias, pelo menos tento.
Já agora. Que rimel é esse? tou quase sem pestanas... o cabelito é que tá a voltar, está quase como o da nossa amiga Aida.
Acho que devias mesmo passar isso tudo para um livro. Seria uma grande lição de vida, e uma ajuda para outras pessoas.

Beijocas grandes e não te esqueças: Gaja que é gaja, tem de estar sempre linda!

laura disse...

.....
Oi mocidade!

É mesmo mocidade... criem mais uns aninhos e vão ver como pouco se importarão com a inveja e a má lingua... Já sofri disso tudo, mas agora até acho piada aos comentários, é verdade, deliro em provocar esses sentimentos obscuros, essa é a minha vingança. Já repararam que quem inveja são infelizes doentes que não conseguem suportar a sua mediocridade...

Solidão? Jamais! já-mé... como o diria o das obras públicas...
Tenho os pássaros, os peixes, a cachorra que nunca mais toma juízo e agora vocês!
É como dizes, sorrir ao mundo, regressar à tona e enfrentar... crescer implica sofrimento...

Vamos ao que interessa.
Dia 1, vamos todas pimponas ao nosso 1º encontro.
Eu sugeria que todas fossem com um lenço verde na cabeça no pescoço ou até na mão estilo Pavarotti.
Que tal?

O verde da Esperança da nova vida pós 1º encontro.

Está tudo a fazer os preparativos?

Beijinhos embrulhados em miminho.
laura

xaluma disse...

leio as palavras de todas estas mulheres valentes que não conheço e sinto-me perto delas á distância.mulheres valentes que sofrem ,que lutam,que choram...mulheres valentes que fazem com que qualquer pequena qualidade seja tão mais qualidade...Tens muita sorte de as teres sua...mulher valente,com ou sem pestanas...se queres pêlo na cara vale-te o buço e a pelagem do queixo....carpe diem.

isa- retratoiluminado disse...

Ola amiga xaluma ...realmente somos já umas quantas, e todas juntas somos uma verdadeira muralha!... a maior parte ja passou pelo maior sufoco, mas andamos todas à procura do mesmo: SAUDE e ESPERANÇA.

Já tinha saudades tuas amiga...tu sabes que quando me cairam algumas pestanas e sobrancelhas, haviam uns no buço que teimavam em ficar...e nas pernas a mesma coisa. Só caiam onde faziam falta os sacanas.

Beijinho. Isa